O ADOLESCENTE que assalta para ter o tênis
de marca que viu na televisão, o menino obeso que pressiona
a mãe no supermercado para experimentar as últimas novidades
com gordura trans e a menina sexualmente precoce que até consegue
ir à escola sem comer, mas não sem a maquiagem no rosto
são, na verdade, presas fáceis de uma mesma armadilha
de apelo ao consumo. São reféns de uma situação
grave e preocupante que, no Brasil, não foi ainda tratada com
a urgência necessária, considerando os impactos negativos
que provoca e ainda poderá provocar na formação
educacional das futuras gerações.
Público-alvo de uma indústria que movimenta algo em torno
de US$ 15 bilhões por ano, as crianças transformaram-se
em um mercado altamente lucrativo. Por conseqüência, tornaram-se
objeto do desejo de marcas poderosas que vendem tudo, de biscoitos baratos
a "games" caros. Seus hábitos, gostos e comportamentos
passaram a integrar estudos de marketing. Desenvolver uma mensagem capaz
de despertar o impulso de consumir uma roupa, um sanduíche, um
brinquedo ou até mesmo produtos que nunca fizeram parte do seu
universo, como maquiagem, passou a ser um desafio para criadores de agências
de propaganda de todo o mundo.
Você, assim como eu, já deve ter ouvido ou lido que o mercado
infantil é um dos mais promissores do mundo. Dizem que as crianças
influenciam a compra dos pais, que estão cada vez mais bem informadas
para escolher produtos e serviços e que, portanto, a publicidade
a elas dirigida é uma demanda natural de um novo mundo no qual,
assim como os adultos, elas devem ter o direito de consumir. Por trás
desse discurso, no entanto, esconde-se o equívoco de tratá-las
como adultos em miniatura.
A publicidade dirigida a crianças deve, sim, ter limites. E limites
muito claros. Ao contrário dos adultos, as crianças não
possuem maturidade cognitiva para compreender uma mensagem comercial
em toda a sua amplitude. Não dispõem de mecanismos para
fazer a necessária crítica aos apelos para o consumo. Quando
pequenas, não conseguem diferenciar um comercial de brinquedo
de um programa de entretenimento. Mas, a todo momento, são submetidas
a uma bateria de mensagens comerciais cujo objetivo nada disfarçado é estimular
o consumo de produtos e serviços de que não necessitam.
Consumir a última novidade passa, portanto, a ser uma necessidade
em si. E uma atividade geradora de tensão permanente. Para as
crianças cujos pais têm bom poder aquisitivo, a tensão
está em adquirir sempre mais. Para aquelas que nascem em famílias
de baixa renda, a tensão decorre do fato de não poder ter
aquilo que a propaganda vende como uma aspiração natural
de toda criança. Os resultados sociais desse quadro são
visíveis. Mais visíveis ainda são os estragos causados
na saúde, na qualidade de vida, no grau de instrução
e na convivência.
Os resultados dessa publicidade também atingem algo muito precioso
e caro a uma criança e, conseqüentemente, ao seu comportamento
na fase adulta, o universo onírico. Que é, em quaisquer
circunstâncias, a maneira única e legítima de ela
imaginar e criar um mundo que não pode ser imposto, mas construído
por suas próprias regras. É fantástica a capacidade
que uma criança tem de transformar as coisas mais simples em algo
apropriado para sua diversão -por exemplo, torna um pedaço
de madeira ou uma folha seca em um cenário harmonioso, em que
pode passear, brincar sem perigo e com alegria.
Portanto, precisamos respeitar e preservar esse universo lírico
como um valor que constitui a criança e que a faz, de fato, ser
o que é -o que tem de diferente do adulto. É hora de repensar,
sob o crivo da ética, a publicidade destinada às crianças.
A ética do respeito à sua integridade física e emocional.
A ética da proteção dos seus direitos elementares.
Uma análise mais detida da Constituição, do ECA
e do Código de Defesa do Consumidor fornece elementos suficientes
para estabelecer regras restritivas à propaganda infantil. Essa
não é uma causa apenas dos profissionais que trabalham
diretamente com a educação de crianças no Brasil.
Mas uma causa de todos nós -pais, mães, educadores, autoridades
públicas, publicitários e dirigentes de empresas socialmente
responsáveis.